domingo, 13 de fevereiro de 2011

ETAPA III – pesquisa de elementos visuais

A intervenção da luz no cenário das ruas, por Suzana Vital (iluminadora)

"A luz intervém decisivamente no espetáculo, ela não é simplesmente decorativa, mas participa na produção do sentido do espetáculo, suas funções dramatúrgicas são infinitas" (ADOLPHE APPIA)

A pesquisa vem me possibilitando ver o espaço urbano de modo diferenciado. Não tenho mais olhos ingênuos e desatentos às imagens e mensagens que existem nas entrelinhas das ruas. A cada dia educo um pouco mais o meu olhar e coleto imagens que antes ficavam pelo trajeto. Aos poucos foi surgindo uma série de imagens: o lixo entulhado, uma mulher com um bebê nos braços sobre o meio fio da calçada suja, o homem que retirava algo que lhe era importante de um monte de papelão e sacolas foscas, a pessoa anônima que dormia sobre chão, dividindo espaço com o sol, com as cadeiras, guardanapos espalhados e com o vai e vem de tantos pés que passavam ligeiros, as disparidades presentes na fronteira de um edifício luxuoso (como o Píer Mauricio de Nassau) e as casas improvisadas em papelão na calçada escura, o homem num ato quase animalesco ataca entulhos próximo ao poste, a mulher desnutrida e ignorada por quem passa com destino certo, o homem que dorme em frente a loja já fechada. Essas imagens me fazem pensar cada vez mais na questão da invisibilidade.

A cidade tem cores, sonoridades que perpassam toda e qualquer imagem que exista. Do silêncio noturno escuro ao caótico clarão do meio dia.  Não dá para não pensar em iluminação e na ausência dela. 

Ao meio dia, nós temos uma luz branca levemente azulada. Para ser reproduzida em teatro, podemos usar filtros (gelatinas) em refletores para alterar a tonalidade e chegar a uma semelhante a do meio dia (sol a pino).  Uma outra tonalidade que marca a iluminação é a noturna com seu tom alaranjado, deixando as esquinas com um certo suspense e fotografia tenebrosa. No Recife prevalece em seu sistema de iluminação pública as lâmpadas de vapor de sódio.







As Lâmpadas de vapor de sódio é a designação dada a um tipo de lâmpada de descarga em meio gasoso que utiliza um plasma de vapor de sódio para produzir luz  Possui uma temperatura de aproximadamente 2000K, que resulta numa tonalidade amarelo alaranjada, muito parecido com  a cor de uma luz de velas. Esse tipo de lâmpada não revela bem as cores de um objeto, pessoa ou paisagem, deixando tudo sobre um mesmo tom (alaranjado), ocorrendo uma distorção bem grande das cores que incidem seu fluxo luminoso, mas possuem grande potencial dramático, para contra-luzes e contornos. 

Algumas avenidas, como a Avenida Conde da Boa Vista e Avenida Boa Viagem, já utilizam a lâmpada de vapor metálico, que são lâmpadas que combinam iodetos metálicos, com altíssima eficiência energética, excelente reprodução de cor, longa durabilidade e baixa carga térmica. Sua luz é muito branca e brilhante, com maior potencia de iluminação e que mostra todos os detalhes dos objetos e pessoas, como cor e forma.  


A iluminação pública, principalmente a que utiliza a lâmpada de vapor de sódio, provoca várias zonas de sombra no objeto ou pessoa na qual incide. E nesse diálogo de luz e sombra, pude visualizar algumas possibilidades para uma iluminação cênica.



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sábado, 12 de fevereiro de 2011

ETAPA III – pesquisa de figurino

A indumentária no cenário das ruas, por Manuel Carlos (figurinista)

Uma parte da sociedade não se preocupa com “grifes” ou “tendências” da última moda. São os moradores das ruas que cobrem os seus corpos com o que conseguem por doações ou peças descartadas no lixo e por isso ficam fora do padrão definido pelos ditadores da moda. Em meio aos improvisos podemos encontrar estilos e características próprias entre os próprios moradores das ruas. 

Traços que nos transportam a épocas em que, por determinação dos estilistas, era de “bom tom” se mostrar com tais roupas, adornos e/ou adereços que hoje só se usam em representações teatrais ou fantasias carnavalescas. O uso de adornos nas cabeças vem do antigo oriente, ou seja, de uma contribuição dos povos montanheses que usavam barretes de feltro de formas diversas. Já no I milênio, os hititas (um povo indo-europeu) dos dois sexos usavam o barrete alto e cilíndrico com a capa arredondada ou cônica. As mulheres acrescentavam um véu comprido disposto do alto do gorro e podiam trazê-lo ao rosto. 





Veja por exemplo este morador de rua na Praça Maciel Pinheiro em um dia de chuva portando um estilo medieval que nos lembra um monarca.






O que podemos confirmar com este pequeno resumo dos cenários invisíveis das ruas é a existência de uma grande riqueza cenográfica que, só através da sensibilidade, podemos percebê-la e transformá-la em arte para um imenso panorama de visibilidades. Foi o que fez Joãozinho Trinta ao levar para a passarela do sambódromo carioca, os mendigos invisíveis de uma sociedade que superou o brilhantismo de plumas e pedrarias das luxuosas escolas concorrentes.





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domingo, 6 de fevereiro de 2011

ETAPA III - a experiência na cena

Após vários dias de experiências vividas nas ruas com entrevistas, observações, circulação nos espaços públicos e "viver como os moradores das ruas", o grupo de atores-pesquisadores chega à etapa de experimentações paralelas, nas ruas e na cena.


Os exercícios propostos por André Filho, diretor da Companhia e coordenador da pesquisa, buscam revelar nos atores a naturalização do que viveram durante a pesquisa até o momento, baseados em três pontos observados que se mostram sempre presentes neste universo pesquisado: agressividade, sexualidade, solidão. Durante a realização dos exercícios e após debate com o grupo, outro importante elemento foi adicionado como constante e presente: a relação com o tempo.

O tempo como "o tempo de espera". Se espera algo que nem sabe direito o que é. Se espera alguém, algo para ajudar que nem sabe se vai de fato chegar. "Apenas ficam na rua sem pensar, sem fazer nada, sem expectativas, apenas esperam... com ociosidade, pacientes em sua espera."

A seguir, algumas imagens do experimento na cena.

O espaço de trabalho



A preparação do corpo

A preparação para a cena



O registro da cena

A experiência levada à cena